Arquivado em: Futebol
Confesso que ontem eu perdi a razão e, pela primeira vez na vida, senti ódio pelo time do Galo. Pelo time atual do Galo. Pelo Galo é impossível. E chorei sem parar por intermináveis quarenta minutos. Exausta de tanto brigar com o time no primeiro tempo do jogo, comecei a chorar de raiva aos 35 minutos e só parei quando a torcida resolveu cantar, lá pelos 10 minutos do segundo tempo. Até aquele momento a raiva tinha se transformado em uma confusão de sentimentos: mágoa, desespero, revolta, amor de novo, vontade de desaparecer do universo, tentativas frustradas de apagar definitivamente da memória que a minha identidade e a minha história se confundiam com o motivo que me fazia chorar inconsolável, de dar dó ao coração mais insensível, de fazer os olhos dos atleticanos ao meu lado também se encherem de lágrimas, solidários. Não havia abraço, nem palavra mágica que me consolasse. Demorou para secar os dois fios dágua que caiam incessantemente dos meus olhos, atrapalhando a visão do campo (e eu também não queria mais ver o jogo: queria que tudo acabasse logo, pra fugir dali, esquecer daquela noite pra sempre!). Não havia grito de incentivo: eu não queria mais perder meu tempo incentivando aqueles onze traidores que não respeitavam meu Galo e nem jogar bola direito estavam sabendo!
Mas bastou começar a cantar o Hino e a lembrança do dia em que o Galo caiu veio à tona… A torcida cantando e aplaudindo o time e eu desabando na arquibancada, aquele abismo que se abriu quando o jogo acabou, minha vida perdendo o sentido por alguns intantes, aquela sensação de vazio, do “agora não há mais nada a ser feito: acabou”… Acho que o medo de passar por tudo aquilo de novo conseguiu ser maior que tudo e roguei a praga pro Rafa: “esta merda deste jogo vai acabar em 1a1 só pra me contrariar, só pra me fazer ficar ainda com mais raiva deste maldito placar”. Dito e feito. Comemorei o gol com raiva, não sofri mais com nenhuma investida dos urubus pra cima do Edson ou erro de finalização do Galo: o jogo ia acabar 1a1. Ponto final. Eis a nossa sina até o momento.
Desesperadamente, rezo todo dia para que este placar desapareça da nossa tabela. Porque foi empatando quase todos os jogos que caímos em 2005… Mas ontem até que esteve de bom tamanho. E eu odeio ter que dizer isto!
Ontem eu também tive uma certeza: eu odeio o Flamengo. É incrível como nenhum outro time, nem São Paulo, nem Corinthians, nem aquele outro time de BH, me causam a mesma sensação de ódio, de vontade de desejar o mal pela eternidade afora como a que sinto pelo Flamengo quando ele entra em campo contra o Galo. É como se eu realmente estivesse num campo de guerra. E aí vale tudo. Até passar pela confusão maluca de sentimentos que contei agora a pouco… Os outros três times, que também mantenho na minha lista negra, me causam outra sensação: de repulsa, de indiferença, daquela do tipo: “quem este timinho pensa que é pra entrar em campo com este nariz empinado pra cima do meu Galo?”. Mas este é assunto pra outro texto…
Mas a noite até que começou divertida…
Estava em casa, 17h45, me preparando pra subir pro campo, quando Alisson me liga:
_ Beta, você vai ao jogo?
_ Que pergunta… Claro que eu vou. Não perco Galo e Flamengo nunca nesta vida!
_ Pois é… eu tô querendo ir mas tô sem ingresso. Será que rola de comprar na hora?
_ Claro que rola! Até ontem só tinham vendido 19.000 ingressos… Eu tô de passaporte, mas lá na hora a gente encontra ingresso fácil, fácil. Vambora!
E o Alisson rachando os bicos.
_ Que foi? – perguntei, também rindo. Ao que ele respondeu, me imitando:
_ Só 19.000 ingressos… Só atleticano mesmo pra falar que 19.000 ingressos vendidos é pouco pra um jogo!! Se fosse um smurf nem arriscava subir pro campo. Eles demoram umas três partidas pra contar 19.000!
E eu ainda completei:
_ É o que dá torcer pra um time de massa, amigo! A gente entra no Mineirão e vê 30.000 e ainda reclama que tá vazio, que a torcida não apóia o time!
Não só compramos o ingresso assim que saímos do estacionamento, como ainda deu tempo de tomar umas três cervejas antes do jogo! Ah, este Galo… É uma pena apenas que o Alisson tenha me abandonado pra assistir o jogo ao lado da Charanga e eu não tenha conseguido trocar o meu ingresso do 12 pelo 7A… Pena? Sorte do Alisson! Que correria o risco de sair com alguma parte do corpo machucada pela amiga aqui : pior é que acontece em todo jogo que ele assiste comigo, tadinho! Mas este também é assunto pra um outro texto…
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