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Nestes pouco mais de quarenta dias em que estive longe, nosso Galo sofreu quatro goleadas, duas delas dentro de casa. Mas o Galo também virou um jogo na raça contra o Santos e goleou o Atlético-PR… Tudo bem que são dois times em situações bem parecidas com a nossa. E esta situação, infelizmente, não é lá das mais sonhadas neste ano de Centenário. Meu pai me contou que já tomamos 70 gols este ano! E ainda ironizou: “Só falta 30, filha. Pra ficar um gol pra cada ano”.
A ironia parece ter se tornado nosso remédio contra a dor que é ver nosso objeto de adoração (mais que religiosa eu diria) em tão desonrosa situação. Ouvir os gritos da torcida no jogo contra o Botafogo, ironizando cada lance dos jogadores em campo, cantando “É campeão”, fez com que eu também risse, ironicamente, por dentro. E doeu chegar a este ponto tão crítico. Mas antes minha dor ficasse somente nisto…
Ver as cenas dos vândalos invadindo a Sede, destruindo parte de nosso patrimônio, doeu muito mais fundo. Porque estes idiotas não sabem discernir o que é amar e respeitar uma instituição como o Clube Atlético Mineiro de uma paixão doentia que se julga acima de todas as coisas, que é capaz de destruir, de machucar, de matar, sem se dar conta de que o mal que eles fazem ao patrimônio do Galo, as brigas ridículas que mancham nossa História, acabam com a essência do que é ser verdadeiramente atleticano. Quando se destrói o patrimônio do Galo, é ao Galo que se está destruindo. E ver qualquer pedaço do meu objeto de adoração ser destruído por vândalos sem nenhuma razão que justifique este ato (porque me foi ensinado desde pequena que nada justifica um ato violento), dói. E dói fundo. É como se machucassem a mim!
Para mim, por pior que seja a crise (e esta é uma das piores crises que já vi o Galo atravessar), por mais indignação que eu possa sentir, por mais revoltada, por mais que eu às vezes tenha que me segurar pra não parar na sala do Nélio ou do Ricardo (que começaram este maldito caos) ou mesmo do Ziza, apontar o dedo no nariz deles e dizer umas boas verdades, eu sei que eu não o faria. Porque seria uma perda de tempo. E, como canta o Chris Cornell, “ser você mesmo é tudo que você pode fazer”. Ser uma atleticana de verdade. Que às vezes se culpa por se achar superior aos demais, achando que seu amor pelo Galo está acima de tudo, é maior que o suposto amor que estas pessoas que se dizem atleticanas propagam por aí.
Se estes vândalos que invadiram a Sede na quinta-feira, se o Ziza, o Ricardo, o Nélio e boa parte das pessoas que dirigem ou já dirigiram o Galo o amassem verdadeiramente, nosso Glorioso jamais passaria por tantas crises. E ainda haverão aqueles que me dirão que o amor é cego e não permite que se administre friamente um Clube (e eu acho que deveria ser administrado friamente mesmo, como uma empresa, para se tornar algo como um São Paulo ou até um Chelsea). Mas pergunte a qualquer pai ou mãe o que é o verdadeiro amor. Amor incondicional que só pai e mãe podem sentir pelos seus filhos. E é a única comparação que eu consegui fazer até o momento sobre o que é o amor do atleticano pelo Galo: é idêntico ao amor de um pai ou mãe pelo seu filho.
Pelo seu filho você é capaz de qualquer coisa, você faz qualquer sacrifício, você não se entrega, por mais que a realidade se mostre contrária às suas ilusões, você faz vista grossa para os defeitos e as falhas dos seus filhos (você aprendeu com a própria vida que todos têm seu próprio tempo para melhorar e aprender com os seus erros), você às vezes briga, às vezes até castiga seus filhos, mas sempre dói mais em você. Seu filho pode se transformar em motivo de orgulho ou decepção para você. Mas, ainda assim, você o ama. Porque ele é uma parte de você. Indissociável. Da mesma maneira que foi preciso um pedaço de você para que ele existisse, ele também carrega em si um pedaço de você. Como pai e filho, sangue do mesmo sangue, almas que se cruzam num destino em comum, compartilhado a ferro e fogo, a água em forma de lágrimas de alegria ou de dor. E gerações virão e este amor não acaba. Não se apaga, não há nada que o supere. Ele só faz aumentar à medida que o tempo passa… Cada passo do seu filho, cada vitória, cada obstáculo superado por ele, só te enche cada vez mais de orgulho.
E é este orgulho que sinto quando penso no Galo. Orgulho por saber que ele vai superar mais uma crise e eu estarei lá, apoiando-o. Ainda que a alma me peça um pouco mais de paz, ainda que o corpo comece a demonstrar sinais de cansaço, ainda que minha gastrite nervosa me impeça de presenciar alguns jogos ou eventos do Clube. Por mais que eu adoeça literalmente (quantas vezes forem preciso), por mais que eu ache que já não existem mais lágrimas, por mais que eu às vezes queira desistir, sempre aparece alguém pra me lembrar que o amor que eu sinto pelo Galo vale a pena ser vivido em sua essência. Até o último suspiro, até o último grito de “Galo!”.
E amor assim, eu sempre soube, só conseguirei sentir pelos meus filhos…