Atleticana


E não é que o Dom Quixote venceu a primeira batalha contra o moinho?
Outubro 30, 2008, 10:59 pm
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Mesmo aqueles que nunca leram o livro do Cervantes conhecem, nem que seja um pouquinho, o Dom Quixote de La Mancha. Aquele ser humano do bem que, de tanto ler romances de aventuras e de cavalaria, um dia acordou e foi ele mesmo se tornar um legítimo cavaleiro! Deve ter pensado assim: “chega de sonhos, agora eu vou em busca é de realizações!” E ele foi caminhar por aí, com seus objetos de cavalaria e inimigos inventados.
Mas todos se lembram, pelo menos, daquela cena em que o moço raquítico e cansado enfrenta um moinho, acreditando ser este o maior de todos os seus inimigos. Que luta ingrata! Que cara maluco! Que perda de tempo! Vocês devem pensar com seus escudos do Galo no peito.
Pois nós temos um Dom Quixote no Atlético. Que usa o escudo do Galo como proteção contra todos os males e percalços do caminho. À primeira vista, ele parece mesmo meio amalucado, esbraveja feito doido contra inimigos ocultos e contra possíveis inimigos de verdade (trazendo um pouco para nossa realidade, a CBF é um dos maiores “monstros” já enfrentados por ele).
Como um verdadeiro Dom Quixote, ele é movido à paixão. E, em nome desta paixão, acredita ser capaz de tudo, até de vencer o estático moinho que rodopia suas hélices ao sabor do vento. Ele torce contra o vento, esperando que este um dia desapareça daquele vale e as hélices, enferrujadas, transformem o moinho em um inimigo mais fácil de ser vencido.
Nosso Dom Quixote encontrou seu fiel escudeiro, o Sancho, numa destas suas aventuras, em meio à multidão de fiéis expectadores. Sancho é mais novo e talvez até mais realista, mais dado a cuidar para que Dom Quixote não se machuque demais, não bata a cabeça por aí, estas coisas… No fundo, Sancho também sonha conquistar seu espaço no mundo. E paga o preço acompanhando fielmente nosso querido Dom. Se tornará, com o tempo, algo mais que apenas a sombra do nosso cavaleiro.
Por enquanto Dom Quixote, apesar de reclamar do peso da idade, realiza seu grande sonho, alimentado durante uma vida inteira: venceu a primeira batalha contra o moinho. Ele que, como Sancho, passou boa parte da vida à sombra de um grande homem (este sim, considerado quase que por unanimidade O grande homem que governou a Nação Atleticana).
E nós, fiéis escudeiros do Galo, rezamos todos os dias para que esta luta não seja em vão. Para que os inimigos que Dom Kalil Quixote ainda haverá de enfrentar não sejam de todo maus. E que ele nos garanta momentos únicos, batalhas emocionantes e boas risadas com seus brados e cuspições lançadas aos inimigos.
No romance de Cervantes, um dia Dom Quixote sentiu mais forte o peso das suas ideologias e o choque de realidade lhe transformou a vida. Assim sendo, que Alexandre Kalil deixe um pouco de lado o seu idealismo romântico e que a realidade que ele abraçará a partir de amanhã, pleno dia das Bruxas (da caça às bruxas, quem sabe?) lhe ensine a governar a Nação Atleticana tão bem quanto aquele que lhe deu o nome.
Porque sonhar que de repente ele mude de Dom Quixote para Alexandre, o Grande é fantasiar demais…

Roberta de Oliveira



Fera ferida
Outubro 24, 2008, 10:57 pm
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É, eu reconheço que perdi a vergonha na cara mesmo…
Depois de quase apanhar da PM por duas vezes na porta do Peixe Vivo (antes e depois do Clássico), de ver a minha torcida ficar em silêncio num Mineirão lotado, de ver o meu time não jogar e, consequentemente, perder pro seu rival mineiro mais uma vez no ano do Centenário e tudo isso no dia do meu aniversário, eu deveria mesmo desistir e rezar pro ano acabar logo. Deveria não voltar mais ao campo até que se comece outro campeonato…
Deveria ter apelado com todo mundo que veio me abraçar no dia seguinte pra me dar parabéns e aproveitou pra me dar os pêsames pela derrota. Tenho pavio curto, gênio de cão. Já briguei tantas vezes. Já bati tantas vezes. Já feri tantas vezes, tantas pessoas, por causa deste amor doentio. Já perdi tantos amores, todos incapazes de compreender esta minha loucura… Não seria a primeira nem a última vez. Mas não fiz nada. Fiquei calada. Talvez porque já não caiba mais nenhuma mágoa. Já não tem mais espaço no meu coração pra mais uma decepção relacionada ao Galo. E, quando eu penso que já não existe mais nenhuma lágrima pendente, eis que ela surge, como agora, multiplicando-se numa rapidez incrível (parece Gremlin, que se multiplica na água! rsrs).
Eu sei que eu deveria me amar mais, cuidar mais de mim, da minha saúde física e espiritual. Mas o Galo (ou será este amor maluco e sem noção que eu sinto por ele?) consegue arrancar de mim forças onde eu nem imagino que tenho… 
E lá vou eu de novo, em pleno sábado, 18h20 da noite, ver este time ridículo entrar em campo. Eu e, por enquanto, mais dois mil apaixonados. Completamente insanos. Completamente cegos. Mentindo pra nós mesmos que o Galo tem solução. E, quem sabe, se ele tem solução, a gente também tenha salvação! Vai que tem mesmo… Vai que o Galo ganha do Inter como ganhou dos urubus…
E eu vou estar lá, de novo, do lado da Charanga, sonhando com os velhos tempos. Vendo os jogadores do Hexacampeonato serem homenageados. Sonhando com os bons tempos que ainda virão. Se Deus quiser. E eu sei: no fundo, bem lá no fundo, Deus também é atleticano…

Roberta de Oliveira



Para viver um grande amor – II
Outubro 17, 2008, 11:46 pm
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Uma das primeiras imagens que guardo registradas na minha memória afetiva é a do colo do meu pai, eu devia ter uns três anos de idade, me mostrando, todo orgulhoso, cartões daqueles de chiclete para colecionadores infantis e adultos (eu consigo sentir o cheiro daqueles cartões do meu pai e o calor do seu colo como se fosse agora, neste exato instante), todos com retratos de jogadores do Galo. E lembro que ele fazia questão de reforçar que um daqueles moços se chamava Reinaldo e que eu, se fosse menino como o Beto, meu irmão mais velho, também teria nome de jogador do Atlético (a intenção era montar um time, mas a mulher com quem ele se casou têm um gênio forte, fazer o quê?) e este nome seria Reinaldo. Como não dava pra me chamar também de Rei, ele passou boa parte da minha vida me chamando de princesa. E eu acreditava que era mesmo! E o Rei tomava conta de um reino distante chamado de Belo Horizonte… Pelé só surgiu na minha vida tempos depois, ainda assim apenas como o namorado da Xuxa. E nunca significou nada pra mim. “Mil vezes o Garrincha”, bradava meu pai, quando queria falar de gênios do futebol. E pra ele, o Rei só não desbancou o Pelé porque era uma pobre vítima de jogadores maldosos que o obrigaram a encerrar a carreira cedo. E a influência seguiu forte por anos e anos. Tudo o que meu pai falava era a mais nobre expressão da verdade. Ponto final. Meu primeiro grande ídolo!
E como não amar um cara passional por natureza, cheio de manias e superstições, ligado nos 220v, que fazia mil coisas ao mesmo tempo, que tem um coração enorme e o sorriso mais lindo e cativante do universo inteiro… Dono de um carisma incrível, meu pai colecionava grandes amigos, os quais recebia pra um bate papo que varava a noite na porta de casa, para falar sobre o Galo. Sua risada contagiante iluminava a noite, naquela rua do interior. Sempre com uma tirada divertida e um humor inabalável, não importava a situação.
Um desportista nato, meu pai nos ensinou desde cedo a amar ao Galo sobre todas as coisa mas, acima de tudo, a respeitar o adversário. Ou, no meu caso, ignorá-lo simplesmente. Quando eu nasci, quase no final de 77, o Galo começou uma trajetória que nos levou ao hexa-campeonato mineiro e, pra mim, o maior adversário do Galo sempre foi o Flamengo. O time do Barro Preto simplesmente não existia pra mim, por mais que alguns coleguinhas na escola tentassem me convencer que este time era melhor: o meu time era hexa, o meu time disputava finais do Brasileiro, o meu time tinha a torcida mais apaixonada e fazia os jogos mais emocionantes, o meu time fazia meu pai enlouquecer por quase duas horas, quase todo fim de semana, mordendo a tira de couro de seu rádio e andando de um lado pro outro da casa, à beira de um ataque de nervos, o meu time fazia meu pai gritar ensandecido, falar todos os palavrões que eram terminantemente proibidos para crianças (e eu apenas rezava pra crescer logo e poder falar palavrão como ele!), meu time fazia meu pai bater a mão com força até machucar (tempos depois eu entendi porque sempre me machuco quando vou ao Mineirão…).
E esta paixão cega do meu pai contagiava a todos. Imagina a loucura que era assistir ou ouvir um jogo do Galo ao lado dele. Se fosse pelo radinho, você tinha que sair andando atrás dele pela casa! Se tinha algum amigo junto, ele aumentava o som do radinho e o largava conosco por alguns segundos: a conta de dar uma volta com a mão na cabeça, buscar o enésimo copo dágua…
Ainda não encontraram nenhuma explicação lógica pra isso, talvez Freud possa nos dizer um dia, mas dos três filhos, o mais apaixonado e literalmente doente pelo Galo é justamente a única que é mulher: eu. Aquela que vai aos jogos e liga pra ele toda vez que o Galo entra em campo ou faz gol, aquela que ele de vez em quando briga feio, ameaçando de internação e tudo o mais porque acha que ela ultrapassou todos os limites com esta paixão insana, aquela que ele já fez chorar tantas vezes, escondendo o radinho para que ela não ouvisse o jogo e sofresse como ele durante duas horas porque o jogo era de vida ou morte, aquela que já fugiu de casa depois de jurar que iria dormir e esperou que todos dormissem e foi pra casa de uma amiga pra ouvir o jogo e, quando voltou, ele a esperava sentado na cama, ansioso por saber o resultado… aquela que era proibida de usar a camisa do time porque era menina e que depois fez uma tatuagem de 13cm e, de propósito, a apresentou como surpresa num dia dos Pais, para encher seu coração alvi-negro de orgulho…
Meu amor pelo Galo se confunde com meu próprio amor por este atleticano cheio de energia positiva, um virginiano que faz de tudo pra me irritar terrivelmente com suas incontáveis manias e que, ao mesmo tempo, sempre me faz rir tanto com seu jeito moleque de ser, sempre me enche de orgulho quando vejo sua alegria imensa de viver, mesmo nos momentos mais difíceis que já passamos juntos, me enche de orgulho quando vejo seu poder de superação. Desde que nasceu, um eterno guerreiro, como um verdadeiro Atleticano tem que ser.
Ele passou os últimos 31 anos dizendo pra todo mundo que eu fui o maior presente de aniversário que ele já ganhou (e olha que o Beto nasceu no mesmo mês que eu). Exatos 30 anos e 29 dias nos separam em idade. E eu só espero poder dizer, simplesmente: valeu a pena cada segundo ao seu lado, pai!!
Obrigada por me ensinar a amar ao Galo com a ti mesmo! (Risos entre lágrimas como a gente adora!) Obrigada por me fazer acreditar no poder transformador do amor verdadeiro, por sempre me distrair e inventar alguma piada sem graça quando eu te ligo aos prantos, só pra me fazer rir. Obrigada por puxar minha orelha quando eu esqueço o nome daquele menino que, semanas atrás, era o grande amor da minha vida… Obrigada por me apoiar, mesmo sofrendo por dentro, em todas as minhas decisões, por mais passionais que elas sejam e por me estender a mão quando eu volto chorando porque não era nada daquilo que eu imaginei… Mas, acima de tudo, obrigada por me deixar ser seu maior presente nesta vida. Amo você!!



A festa está só começando…
Outubro 15, 2008, 10:35 am
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Porque não se comemoram 31 anos todos os dias.
E porque eu sou atleticana e é meu aniversário que domingo vai ser o dia mais feliz de toda a minha vida! A mim não importa o resultado do jogo: importa estar ao lado da Massa!



Das coisas que não têm preço
Outubro 12, 2008, 5:34 pm
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Sei que eu sou o cúmulo do otimismo e talvez fosse a única atleticana a acreditar que o Galo vencesse os urubus em pleno Maracanã lotado. Eu só nunca poderia imaginar que pudesse ser tão fácil! Sabe quando você acorda com a sensação de que o dia lhe reserva muitas surpresas, que tanto podem ser boas quanto más e você apenas espera pra ver no que vai dar?
Durante toda a semana eu apenas lia as matérias sobre a empolgação (pra não dizer arrogância, prepotência, antipatia e salto alto) dos urubus para este jogo. Vi que o recorde de público seria alcançado e engoli calada, porque há dois anos quem fazia isto era a minha torcida. Vi que o presidente deles mandou preparar a festa porque aquele seria o jogo do título do Flamengo, o jogo que daria início à trajetória mais espetacular rumo ao título de 2008 e nós nem temos presidente (eleições só no final deste mês e olha lá). E vi tudo o que todo mundo viu: os urubus se achando os reis do Brasil, os seres mais onipotentes e imbatíveis do planeta. E, claro, torci pra que eles caíssem do cavalo e quebrassem a cara.
Ninguém poderia imaginar, dadas as circunstâncias atuais, que este time do Galo fosse capaz de calar a boca dos 81 mil presentes do Maracanã. Mas a Sportv sempre vem com aquelas matérias contando sobre os confrontos históricos e eu revi o Rei calando o estádio por duas vezes na final de 1980. E meu coração me disse, sobressaltado, dentro do peito: agora vai!
Parti pro ritual: busquei meu querido trapo do Galo, as pedrinhas que ganhei de um amigo xamãnista e apenas esperei. Tirei o som da TV e fiquei ouvindo o Willy narrar o melhor jogo do Galo no ano de seu Centenário. Só abri o som da TV quando o repórter comentou que a urubuzada estava em silêncio: eu precisava ouvir aquele silêncio!!
Cada gol era uma festa, cada lance uma alegria sem fim. O Galo bailou em campo e eu vibrava de felicidade e encantamento a cada lance. Me lembrava do tanto que eu havia chorado no 1a1 este ano e sorria e chorava ao mesmo tempo, numa alegria incontida que invadiu meu peito e explodia em gritos pela vizinhança afora… Me lembrava daqueles 3a0 contra os urubus de Romário no Mineirão em 99 e torcia muito, feliz como nunca este ano!
E ontem era mesmo um dia mágico: o Galo não vencia um time carioca no Maraca havia 13 anos. Nossa última vitória sobre os urubus havia sido exatamente num 11 de outubro (a ressaca me impede de pesquisar na memória afetiva em qual ano e qual o resultado dos jogos)…

Agora é esperar que domingo que vem, dia do meu aniversário, o Galo vença o último clássico do Centenário e faça a festa de comemoração mais linda dos meus 31 anos de vida! Que os deuses do futebol digam amém!



Outubro
Outubro 2, 2008, 2:20 am
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“Outubro e as árvores se despem de tudo que vestem
O que me importa?
Outubro e os reinos ascendem e reinos decaem
Mas você segue em frente
” – U2: “October”

Um dia, quem sabe, a nuvem negra vai passar. E então saberemos que nenhuma esperança é vã, que todo amor vale a pena e que toda semente carrega em si o dom de germinar, independente do terreno em que tenha caído.
Se hoje o caminho nos parece tortuoso, cheio de pedras pontiagudas… Se este caminho é íngreme e vemos um precipício ao nosso lado, nos lembrando a todo momento que é preciso equilíbrio para continuarmos a caminhada sem o risco de cairmos… Olhemos para além do precipício: existe um vale, milhares de montanhas lá embaixo, um sol a se pôr, lua e estrelas no horizonte, existem os pássaros e existe vida pulsando lá embaixo. Quando menos esperarmos, este trecho tortuoso nos levará a uma cachoeira, à beira de um rio…
Sigamos o curso do rio, ainda que ele não nos dê certezas de sua profundidade. Aprendamos a respeitar os companheiros de caminhada. Dividamos com eles seus ideais. E respeitemos suas decisões: alguns desejarão voltar, outros preferirão ficar parados, esperando seus companheiros ou pensando em melhores estratégias para seguir na caminhada, alguns seguirão consigo, lhe dando apoio e incentivo.
Mas pensemos com cuidado: o passo que damos hoje é muito importante para que nosso amanhã seja possível. Ao lado de quem você caminha?

“Esteja sempre perto, sempre longe dos covardes.
O errado e o certo pra ter raiva e ter piedade” – Herbert Vianna, “Esta Tarde”