Atleticana


Por que, apesar de tudo, sou Atleticana
julho 10, 2011, 11:17 pm
Filed under: Futebol

O Galo “em crise” e não consigo deixar de pensar no meu pai e na nossa infância. Não sei se era amor demais ao Galo ou medo mesmo de perder os filhos pro outro time (que diga-se, não era nada no final dos anos 70, qdo nascemos, e durante toda a década de 80), ou se ser torcedor do Galo é mesmo uma doença que vem do DNA, mas meu pai fazia questão de nos tornar tão ou mais apaixonados que ele.
Meu pai não quis que seu primogênito carregasse o seu nome. Chamou-o de Humberto. Ele já era o Dadá (apelido que ele mesmo se deu, aos dois anos de idade, segundo meu tio Antônio) e Humberto foi o cara que deu o passe pro gol que fez do Galo o 1º Campeão Brasileiro. Meu pai sequer conhecia minha mãe, naquela época. Mas já tinha decidido. E pronto.
Ele passou a minha gestação inteira sonhando em ter mais um menino, só pra chamar de Reinaldo. O grande ídolo do Galo dele. Nasci em 77 e passei a vida inteira ouvindo que “77 foi o ano do Rei”. Perdi pro Reinaldo o direito de dizer “77 foi o ano em que nasci”. Mas ganhei o nome em homenagem ao “Rei” Roberto Carlos, outro grande ídolo dele. Pelo menos não foi Reinalda, suspirei por anos da minha infância e adolescência…
O Rodrigo ficou com este nome porque mamãe apelou, pela enésima vez, com o fanatismo do meu pai. Mas foi criado para ser jogador de futebol, desde sempre. E fez testes no Galo inclusive, mas esta é outra história.
A primeira lembrança que guardo desta vida, a primeira imagem, sou eu sentada no colo do meu pai, aos 3, 4 anos, com ele me mostrando os FutCards (lembram?) dos jogadores do Galo: “este é o Reinaldo, este é o Cerezo, este o João Leite” e por aí vai. Mais tarde, tinha “prova oral” pros três filhos. Sabíamos de cor TODOS os nomes dos jogadores do Galo, inclusive quem não jogava mais, qual o número da camisa, em que posição jogavam, quantos gols tinham marcado.
Papai se orgulhava de chamar um dos filhos e pedir a ele pra dizer a escalação do time pro jogo daquele dia, enquanto os amigos esperavam, ansiosos, pra ouvir o Galo do Willy Gonzer (sim, outro ídolo do meu pai. Sim, já quis batizar um dos nossos gatos de Willy e até mudar o nome do Bono, o cachorro, para Willy).
Também fazíamos provas do esquema tático: desenhávamos no papel em que posição cada jogador devia ficar, etc., etc. Quem era Joel Santana pra chegar perto dos meus desenhos!!
E, claro, só ouvíamos o noticiário do Galo. Papai tinha o cuidado de adivinhar qdo a Itatiaia ia falar primeiro de qual time. Assim, se fossem falar do outro time primeiro, ele desligava e ficava olhando pro relógio, até que se falasse do Galo. Era assim qdo acordávamos, qdo íamos almoçar e no jantar (naquela época não haviam tantos jogos à noite, pelo menos não para crianças). Éramos as crianças que mais entendiam do Galo (não só de futebol, repare bem!) na escola.
E isto, meninas, me ajudou bastante a conquistar os gatinhos logo cedo. “A Carlinha é mais bonita”. E a maioria dos meninos: “Mas a Beta, além de bonita, sabe tudo do Galo”. E tinha como alguém concorrer comigo deste jeito?
Eu só fui tomar conhecimento da existência do outro time em 93, qdo um grande amigo da escola, que era torcedor deste time, começou a me irritar com as Copa do Brasil e os tais títulos que o time dele ia conquistando. Eu já era rebelde com todas as causas do mundo pra defender, imaginem o embate silencioso que se formou aí.
Meu pai só foi ter consciência do estrago que a paixão doentia dele fez nos filhos, comigo. Em 95, o Galo perdeu a Conmenbol pro Rosário Central e só eu assisti ao jogo, gravando em VHS pro Rodrigo, que disputava um campeonato fora de casa na época. Até hoje não sei como fui levada pro quarto. Mas lembro do meu pai chorando comigo, no dia seguinte, qdo eu não consegui me levantar da cama. E me lembro de ter adoecido, de verdade, pelo Galo. Esta foi apenas a primeira vez.
Qdo eu saí de casa pra morar em BH, papai me escreveu um bilhete lindo. E, dentre todas as recomendações, ele me pedia para não ir a um Clássico no Mineirão. Ele tinha medo que eu brigasse com as torcidas, do Galo se esta não estivesse cantando o suficiente e do outro time, caso me irritasse muito. Resultado: meu primeiro jogo no Mineirão? Um Clássico, claro! Liguei pra ele assim que acabou o jogo. E mantinha esta tradição até pouco tempo atrás. Galo entra em campo, faz gol, etc., ligo pro meu pai na hora.
Qdo o Fábio tomou o gol de costas, eu estava no celular com meu pai: tinha ligado pouco antes do pênalti do Marcinho e narrei o 4º gol pro meu pai. Quase perdi o celular na hora. Foi um dos momentos mais impagáveis da minha história com o Galo e meu pai juntos. A gente ri disto como se tivesse acabado de acontecer até hoje…
Em 2007, mesmo ano do “gol de costas”, no dia 14 de julho, fiz a primeira tattoo. Faltavam poucos meses para eu completar 30 anos e queria marcar a única certeza que eu tinha na vida: meu amor pelo Galo. Papai só viu a surpresa um mês depois, no dia dos pais. Cheguei de jaqueta num calor insuportável. Ele não estava em casa. Tive que esconder a tattoo da minha mãe, claro, pra não apanhar. Mas papai não quis saber do presente que eu levei e entreguei antes de tirar a jaqueta. “Pai, tem mais uma coisa que queria te mostrar antes do Sr. abrir o presente”. E ele, qdo viu, jogou o presente na cama e chorou: “Nossa, minha filha, que orgulho!”. Eu posso ser presidente da República, ganhar o Nobel da Paz, que nada no mundo vale mais que este  ”Nossa, minha filha, que orgulho!” que papai disse quando viu minha tattoo pela primeira vez.
E hoje, infelizmente, papai não quer mais saber do Galo. Aposentou o radinho desde que o Marques foi forçado a se aposentar. E vai guardar esta mágoa do Kalil pro resto da vida, por não ter permitido ao Marques o direito a uma festa de despedida. Papai fez campanha pro Marques (como fez pro Reinaldo tb). E este foi seu último momento com o Galo.
Papai não se foi ainda. Apenas desistiu do Galo. Pra mim, é como se desistisse de viver. E dói. Dói não poder ligar mais pra ele qdo o Galo faz gol, dói ouvir ele me perguntando, com rancor, “como é que vai o seu time”, dói dizer a ele que conheci o Cerezo e o Éder outro dia e ele fingir que não dá a mínima. Papai cansou, parou de tomar calmante qdo tem jogo do Galo, parou de adoecer. Foi questão de sobrevivência… E quem sou eu pra culpá-lo?
Dói mais ainda saber que estão acabando com o Galo que eu aprendi a amar e respeitar sobre todas as coisas. Então quando eu digo que odeio certos dirigentes na mesma proporção que amo o Galo, por favor, me entendam. E, por favor, quem torce para outros times, desistam de tentar me irritar: meu amor pelo Galo é mais que incondicional. É sobre-humano. E eu não vou desistir.


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